The Black Keys: Brothers

O Black Keys nasceu em 2001 na cidade de Akron, no estado de Ohio, formado por Dan Auerbach, vocalista/guitarrista, e Patrick Carney, baterista/produtor. O formato compacto da banda sempre favoreceu a crueza de seu som, o que se mostrou perfeito para resgatar a simplicidade originária do blues e do rock. Por 5 álbuns consecutivos (além de EPs, disco ao vivo e investidas solo), a mensagem da dupla parece refletir um fato: o blues não é apenas uma etiqueta nas prateleiras de disco, ele é um princípio, uma fonte que propiciou o nascimento de uma infinidade de estilos hoje já consagrados. Isso não significa, no entanto, que o blues tenha que ficar estancado no passado. Brothers, o novo e sexto disco do Black Keys, é mais um motivo para acreditarmos nisso.

Por 15 faixas, o disco flui como o velho delta do Mississippi, onde os mais longínquos espíritos do blues acabam desaguando no turbulento rock and roll, mas por onde escoam também timbres que visitam o R&B, gospel, soul music, country, e uma bela dose de experimentação. É como uma página da música norte-americana. Há mais de 60 anos atrás, o canto melancólico que ecoava pelas plantações de algodão ganhava os lábios de centenas de jovens que não sabiam exatamente o que faziam no mundo, mas precisavam de alguma voz. Essa voz era o blues, mas o grito virou o rock. E para conseguir gritar tão alto, as guitarras pareciam ter finalmente encontrado sua real vocação: poder gritar o mais alto possível! OK, não é exatamente uma história nova. O rock and roll, o soul e o R&B nasceram do blues. Mas pelo menos, o Black Keys consegue recontar essa história sem cair no comum e batido.

Além de boas composições e melodias bem costuradas, a banda revela um incrível talento para timbrar e casar os instrumentos com as linhas vocais e efeitos sonoros. Isso fica ainda mais evidente pelo fato de que os próprios músicos produziram o disco (com exceção da faixa “Tighten Up”, produzida por Danger Mouse, com quem o Black Keys já havia trabalhado no disco anterior, Attack & Release). Todas as faixas incorporam algum elemento marcante, como ambiências soturnas, backing vocals femininos (cheios de soul) dispersos pelo disco e acordes de guitarra que parecem saídos de uma vitrola antiga. A maior parte de Brothers foi gravada nos estúdios Muscle Schoals Sound em Alabama, por onde já passaram nomes como Aretha Franklin, Willie Nelson, Bill Haley, Rolling Stones e Bob Dylan. Um time conveniente para um disco que percorreu por tantas inspirações.

Os vocais de Auerbach são aveludados e muito característicos, sempre transbordando musicalidade. As guitarras interagem muito bem com os efeitos escolhidos, oscilando entre as mais diversas texturas sonoras, mas sempre mantendo o foco vintage do disco. Como sempre, a bateria de Patrick Carney soa impactante, pulsando como o tenso “tic tac” de uma bomba relógio a ponto de explodir. O carrossel sonoro é completado por passagens sinistras de teclado e o auxílio do baixo para incrementar o groove.

O disco abre com “Everlasting Light”, uma faixa certamente peculiar, carregada de embalos magnetizantes que soam como um aperitivo para o caráter experimental do álbum. O rock entra sem pedir licença já na segunda faixa, “Next Girl”, que agrega uma levada delirante, combinando tremolos e wahs pulsantes com reverberações ultra saturadas. “Tighten Up” é de longe a melhor faixa do disco, cativa já nos primeiros acordes com seu ritmo hipnótico, e se torna verdadeiramente arrebatador com a chegada da primeira estrofe. “Howlin for You” uiva a doce libertinagem dos refrões do rock, uma espécie de “Rock and Roll (part two)”, clássico do glam rock setentista de Gary Glitter, mas com vocais embriagados. Talvez uma das melhores impressões que o disco passe é a facilidade que a banda demonstra para transitar entre épocas e sonoridades tão distantes, mas sem perder a coesão. Enquanto o riff de “She’s Long Gone” berra os anos 70, com overdrives cheios e quentes, além de lindos fraseados de gaita executados na guitarra, o clima sombrio de “Too afraid to Love you” é uma combinação de teclados “draculescos” (quase um cravo medieval) com vocais etéreos e uma melancolia onipresente. A cápsula do tempo guarda canções tenras como “Ten Cent Pistol” e um cover da clássica “Never Give You Up”, de Jerry Butler.

O pacote de Brothers beira uma conclusão simples: apesar de soar tão inventivo e moderno, o disco ainda confirma as maiores devoções do Black Keys, filhos do indomesticável rock n’ roll, netos do blues mais enraizado dos mangues do Delta. Essa parece ser a ideia. Talvez não seja aquele tipo de disco que seduza já no primeiro acorde (com exceção de “Tighten Up”), mas é bem possível que agrade aos roqueiros mais flexíveis e entusiastas do blues que não tenham medo de dar uma chance ao novo. Bem, de certa forma, se não fosse por uma atitude como essa, o rock dificilmente teria nascido e conquistado o mundo.

O subversivo é sedutor, sempre foi.

Les Paul (1915-2009)

Les Paul & Slash

com SLASH


Les Paul Chet Atkins

com CHET ATKINS


Les Paul Brian May

com BRIAN MAY


Arlen Roth, Albert Lee, Les Paul

com ARLEN ROTH e ALBERT LEE


Les Paul BB King

Les Paul BB King 2

com B. B. KING


Les Paul & McCartney

com Sir PAUL MCCARTNEY


Les Paul 2

DOIS ÍCONES

O grande músico: (1915-2009)

A herança: (1952-ETERNO)

Restaurando um Fender Super Reverb de 66 (repost)

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Os amplificadores blackfaces da Fender, da década de 60, são assim chamados por causa do plate preto onde ficam os controladores. Essa foi uma era de ouro para a Fender nas experimentações de circuitos para seus amps, o pequeno período blackface que cobre o início dos 60, mais ou menos, até fevereiro de 65, quando a empresa gradativamente começa a se reestruturar, que compreende a chamada era pré-CBS da Fender (antes de ser comprada pela Holding CBS, que detem o canal de TV), fez a Fender triunfar de vez no ramo de amplificadores, um destino que já estava selado desde a era Tweed de amps da década de 50. São dessa época os clássicos Deluxe Reverb (o amp mais gravado da história da guitarra), Bassman pós tweed (o amp do Brian Setzer), Princeton, Princeton Reverb, Tremolux (que começa a ficar raro de se encontrar), Bandmaster (o campeão de vendas em amps de médio porte, excelente custo/benefício na época), Vibro King (por muito tempo o amp predileto do Clapton e do Robert Cray), Vibrolux, VibroverbChamp e Vibro-champ (de 5 watts) e o Super Reverb combo com 4 falantes de 10 polegadas integrados.

Pois bem, há um tempo atrás, quando pesquisava mais sobre esse período específico de amps Fender, acabei me deparando com uma verdadeira aventura protagonizada por um cara que conta toda a história de restauração de um Super Reverb que ele pagou míseros 10 dólares em garage sale. Tratava-se de um Super Reverb de 66 que mais parecia uma pilha de madeira podre. O texto era extremamente divertido e acabou virando um clássico dos meus favoritos.

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Videos guitarrísticos (Parte 1)

1) Você sempre quis saber o que significa um ‘darker sound’ ? É exatamente o que esse video mostra.

Gibson Les Paul Goldtop, com captadores Moollon, ligado direto em um amp Fender Deluxe Reverb vintage de ’65.

2) O menor atalho para o timbre do Stevie Ray Vaughan: uma Strato e um Vibroverb.

Note o som cremoso que sai do Vibroverb quando são adicionadas válvulas 5751 no estágio de pré-amp. Um dos melhores timbres que já ouvi, mesmo com gravação tosca.

3) Slash fazendo uma visitinha na Marshall para buscar seu brinquedo: um amp Custom de baixa wattagem para ensaio, feito sob encomenda.

Até a próxima!

As guitarras Tokai

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A  Tokai Gakki Co. é uma fabricante japonesa de guitarras que despontou no mercado em meados da década de 60. À essa época, o mercado japonês era ávido especialmente pelos modelos americanos de guitarras, uma persistência que eclodia do desejo crescente de se aproximar de tudo que convergia para a cultura ocidental do pós guerra; neste sentido, o imaginário que rondava o rock n roll, o blues, o jazz e todos os demais estilos para os quais a guitarra se tornara uma bandeira no mundo ocidental, acabou rompendo as fronteiras geográficas e desembocando com toda força na sociedade japonesa. Mas ter uma guitarra elétrica a essa altura do campeonato em um Japão que ainda se reerguia da segunda guerra, embora em ritmo surpreendente, era algo extremamente raro. Não havia uma rede consolidada de distribuidoras e o acesso a esses equipamentos sofria um enorme embargo por diversos fatores, desde razões geográficas até  profundas dissonâncias culturais que não poderiam ser totalmente assimiladas da noite para o dia. Pois é, mas também não demorou muito tempo para que os japoneses arrumassem outro caminho para solucionar o desejo de empunhar uma guitarra elétrica assim como os seus ídolos do ocidente faziam.

A saída mais natural para esse problema refletiu a mesma idéia que tornou a desenvoltura tecnológica japonesa conhecida no mundo inteiro. Em todas as escalas industriais imagináveis, de bens duráveis de baixo a alto custo, os japoneses foram mestres em assimilar os avanços tecnológicos do ocidente, podendo não só reproduzí-los à perfeição como aperfeiçoá-los em alguns casos, a ponto de ameaçar as empresas ocidentais, oferecendo muito mais eficiência de produção e maximização da qualidade. Com instrumentos musicais não foi diferente, Stratos, Les Pauls, Electric Spanish (ES), J200s, SGs acabaram embarcando no oriente com toda força. Acredite ou não, eles conseguiram até levar alguns Guitar Heroes deste lado do mundo para o oriente, assinando contratos de endorsement curiosos. De quem poderia estar falando? Bem, uma dica, era um cara do Texas ainda no começo de sua metéorica carreira.

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Christie’s leiloa uma das últimas Fender Stratocasters compradas por Jimi Hendrix

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A casa de leilões Christie’s lançou um lote especial, mais precisamente o de número 5871 referente a Julho deste ano, contendo a seguinte jóia: Nada mais, nada menos que uma das últimas Stratocasters adquiridas por Jimi Hendrix na Manny’s Music (uma tradicional loja de instrumentos em Nova York que alçou sua fama na carona de artistas como Hendrix, Clapton, Jeff Beck e muitos outros) para futuras gravações na Electric Lady Studios, de onde provavelmente sairia seu próximo disco, não fosse a tragédia que o levou em setembro de 1970. Ou seja, estamos falando de uma guitarra que poderia ter se tornado A! guitarra do set pessoal de Jimi, pois tudo indica que este foi mesmo seu primeiro propósito.

A guitarra em questão é uma Fender Stratocaster na cor sunburst de 1970, serial number 274200, escolhida a dedo por Eugene McFadden (assistente das turnês de Hendrix pelos EUA), seguindo estritas instruções de Jimi (provavelmente bastante minuciosas), dentre dezenas que haviam na loja. Como de praxe, a guitarra ficou ainda na Manny’s para regulagens finais, seguindo as especificações solicitadas por Jimi.

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Fender Stratocaster 1970 de Jimi

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Detalhe do lindo corpo em sunburst faded, já envelhecido e com diversas marcas de uso


O braço dessa strato em particular é em maple, com escala clara, favorita de Jimi, 21 trastes e seletor de 5 posições.

O corpo contem ainda uma inscrição, assinada de próprio punho por Noel Redding, baixista do The Jimi Hendrix Experience, com as seguintes menções: Good Luck, Noel Redding. Acompanha também o case original da Strato, timbrado com a inscrição J. H. EXP. em spray; aliás uma prática comum com os equipamentos de Jimi, pois há diversos cases ou mesmo amplificadores devidamente documentados que foram timbrados da mesma forma.

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Case com as inscrições J. H. EXP.


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Good Luck

Acompanha ainda 5 documentos de autenticidade:

a) Cópia facsimile da nota fiscal original da Manny’s Music Instruments 146 West 48th St. NEW YORK, de Julho de 1970, contendo a descrição do modelo, o serial number, o preço pago no valor de US$275.60, uma inscrição dizendo For Jimi Hendrix e a assinatura de McFadden.

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Nota autenticada da Manny’s Music NEW YORK


b) Um documento digitado e assinado por McFadden confirmando a autenticidade de sua assinatura no primeiro documento.

c) um documento escrito de próprio punho e assinado em 1994 pelo então vice-presidente da Manny’s Music, Stuart Muskowitz, confirmando a autenticidade da nota da Manny’s. Além disso, confirma que a Fender Stratocaster de serial number #274200 fôra um dos modelos especialmente selecionados para Jimi e regulado pela própria Manny’s.

d) documento escrito e assinado por Noel Redding, 4 de outubro de 1994, atestando o seguinte: “Confirmo que Jimi Hendrix utilizou esta guitarra na festa de abertura da Electric Lady Studios, Nova York, 2 de agosto de 1970, na qual também estava presente. Noel Redding.”

e) dois documentos escritos e assinados por Arthur e Albert Allen do The Ghetto Fighters [que gravaram com Jimi na Electric Lady Studios em 70], também atestando que Jimi utilizou a guitarra no mesmo evento mencionado por Noel Redding.

A Christie’s estima que a guitarra será vendida entre US$114,800 e US$147,600, um valor beeem abaixo por exemplo em relação à guitarra branca que Jimi usou na sua antológica apresentação em Woodstock e que foi arrematada por US$750,000. Uma pechincha não é mesmo? Hahaha, brincadeiras à parte, a estimativa é realmente baixa, mas isso não quer dizer que o arremate final será dado dentro destes limites. A estimativa relativamente baixa para um item dessa ordem se deve ao fato de que há apenas testemunho ocular e nenhum testemunho mais enfático, como fotografias, por exemplo. De qualquer maneira, trata-se de uma memorabilia do rock que há muito tempo não se via nas casas de leilões, realmente incrível.

É isso aí,  basicamente a guitarra do Hendrix para o disco que nunca ocorreu. Quer mais que isso?

Fender relança o clássico ’57 Champ

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Muitos de vocês já estão inteirados da fama dessa mini magnificência de amplificador, escolha número 1 de 10 entre 10 músicos em quesito de gravação de valvulado saturado. A Fender já vinha há um tempo reeditando exaustivamente seus modelos blackfaces da década de 60, vertendo enorme empenho para assegurar um bom produto final mesmo com todos os empecilhos da produção massificada, o que obrigou a Fender a reduzir custos guilhotinando a qualidade de alguns componentes dos amplificadores. Mas conversando recentemente com um handmaker de valvulados, com conhecimento técnico específico, andei mudando minhas opiniões sobre essa, digamos assim, leve prática negligente da Fender. Ele fez questão de salientar uma melhora significativa na qualidade geral da construção dos amplificadores Fender Reissue, especialmente nas últimas três temporadas, inclusive nas placas de circuito impresso e na precisão das demais soldas, que era o calcanhar de aquiles dos amps até então. Mas dessa vez não há papo, em razão de inúmeros pedidos de fanáticos pelo Champ Tweed, a Fender resolveu reeditar a versão de 57′ do Champ, dessa vez porém, confiando sua produção aos construtores dedicados da Fender, oferecendo um trabalho quase artesanal na fabricação.

O circuito do 57′ Champ ressuscita o clássico design 5F1, equipado nos originais, sendo portanto todo soldado a mão (hand-wired) e ponto-a-ponto (PTP), o que o qualifica a ingressar na divisão mais classuda e exclusiva da Fender, a linha “Custom”, que já integra os consagrados “’57 Deluxe“, “57′ Twin-Amp” e “Vibro-King“. Além disso, entrega 5 watts em um falante Alnico de 8 polegadas, Weber Special Design 4Ohm. Apenas um controlador, de VOLUME, com o clássico knob “chicken head” preto, luz piloto estilo diamante, gabinete todo feito em pinho maciço com juntas articuladas (finger-jointed) e revestimento Tweed com acabamento lacqueado. A configuração de válvulas segue a ordem tradicional, 1 válvula do tipo 6V6 na potência, uma 12AX7 no estágio de pré e uma válvula do tipo 5Y3 para retificação.

Se os videos estiverem corretos (e não duvido da idoneidade da Fender nesse sentido), essa reedição parece recriar até o “último fio de tweed” a essência dos narrow-panel endiabrados da década de 50. Os amps dessa época se destacam em primeiro lugar pela extrema dinâmica que oferecem, entregando nas mãos do guitarrista, abandonado à própria sorte, o destino de seu timbre. A interação entre o guitarrista e o amplificador se desdobra em ampla profundidade, persuadindo o músico a buscar seu próprio som e sua maneira de tocar, podendo mesclar sonoridades doces e tenras com distorções “roucas” e furiosas  com uma simples alteração de ataque nas cordas. Outra coisa que impressiona nesses amps é o poder que seu som inspira, mesmo com a wattagem tão baixa. O Champ tem uma saturação de válvula de potência inconfundível, tanto que o icônico “cranked champ tone” já praticamente virou uma expressão a se zelar nos círculos de colecionadores e amantes de timbres. Essa saturação tem um quê de misticismo e folclore, não a toa. Quando provocado, o som saturado que sai de um Champ é tão poderoso que parece rasgar o ar como um supersônico. Muito mais que isso, o Champ é o único amp que consegue soar como uma voz rouca de whiskey entoando refrões de blues em algum rincão do Mississipi. Não é pouca coisa não meus senhores. Se duvidam, confiram os videos por favor.

Não há ainda preço para o ’57 Champ.

Acompanhem ao final os ótimos videos de demonstração do 57′ Champ

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Traseira do ’57 Champ

 

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Detalhe do circuito PTP soldado a mão

 

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Visão frontal do ’57 Champ

Clique no link “manter a leitura” para conferir os videos de demonstração

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